sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Resenha: PIERRE LÉVY, As Tecnologias da Inteligência - O Futuro do Pensamento na Era da Informática








Pierre Lévy – As tecnologias da Inteligência- O futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: Editora 34, 2004, 13a. Edição.

Lançado em português em 1993, talvez seja o livro mais importante de Pierre Lévy, autor consagrado no estudo da história, filosofia e antropologia da informação. Muitas das obras que vieram em seguida (vide relação no final do texto) serviram mais ao marketing editorial, explorando o sucesso conseguido pelo autor junto a um público ávido de conhecimento a respeito das tecnologias da informação que à introdução de novas idéias e conceitos. Sua leitura cobre todo o pensamento de Pierre Lévy, repetido, de modo exaustivo, em outras publicações do autor.

Na introdução (Face à técnica) Lévy declara: "Novas maneiras de pensar e de conviver estão sendo elaboradas no mundo das telecomunicações e da informática. As relações entre os homens, o trabalho, a própria inteligência dependem, na verdade, da metamorfose incessante de dispositivos informacionais de todos os tipos. Escrita, leitura, visão, audição, criação, aprendizagem são capturados por uma informática cada vez mais avançada. Não se pode mais conceber a pesquisa científica sem uma aparelhagem complexa que redistribui as antigas divisões entre experiência e teoria. Emerge, neste final do século XX, um conhecimento por simulação que os epistemologistas ainda não inventaram".

A correta e precisa tradução de Carlos Irineu da Costa ilustra que um dos principais agentes de transformação das sociedades atuais é a técnica, ou melhor, as técnicas, sob suas diferentes formas, usos diversos e as implicações que têm sobre o cotidiano e sobre nossas atividades.

No texto, Lévy privilegia, entre a grande quantidade de técnicas existentes, as técnicas de transmissão e tratamento das mensagens, uma vez que são as que transformam os ritmos e modalidades da comunicação de modo mais direto, contribuindo para a redefinição das organizações.

Lévy propõe o fim da (pretensa) oposição entre o homem e a máquina; e questiona: o que é a técnica e como ela influencia os diferentes aspectos de nossa sociedade? Em que medida indivíduos ou projetos singulares conseguem alterar os usos e sentidos da técnica? A técnica é necessariamente racional e utilitária?

Ataca o mito da "técnica neutra', nem boa nem má, posicionando-a num contexto social mais amplo, em parte determinado por ela – a técnica, mas também sendo determinada por ele – o contexto social.

Elabora todo um arcabouço teórico – oralidade primária, escrita e informática (os três tempos do espírito) - entre outras noções didáticas e inova conceitualmente (hipertexto, ecologia cognitiva, tecnodemocracia) na esteira do pensamento precursor de Marshall McLuhan, ("the mass age", aldeia global, dois de seus conceitos) outro notável canadense que nos anos 60 revelou à civilização ocidental as primeiras luzes do que seria, 40 anos depois, a era da tecnologia da informação (the mass age, na aldeia global).

Ume excelente texto para fundamentação técnica, escrito em linguagem clara e elegante: sem dúvida, um clássico no assunto.

A cartografia da Inteligência Coletiva



É nessa perspectiva que nos perguntamos a respeito da inteligência coletiva e de seu papel nas reflexões sobre comunidades e grupos, tanto virtuais quanto locais. Cabe salientar que o sentido que atribuímos aqui à inteligência coletiva é o de potencial de uma população, sua disponibilidade para a ação coletiva. A cartografia dessa inteligência ou disposição seria a fotografia simultanea do potencial de interação de um grupo ou comunidade e de seu respectivo ecossistema de idéias. E se a inteligência individual requer certas condições para fluir em cada um de nós (como, por exemplo, a saúde física, criação familiar e situação afetiva), também a inteligência coletiva deve requerer outras condições para afluir entre os indivíduos. Como sugere Pierre Lévy (Lévy, 2004), essas condições poderiam ser dadas pela situação do capital social, cultural e tecnológico de uma coletividade. Nesse sentido, o potencial de interação entre os indivíduos (capital social) constituiria um dos índices de referência para se compreender a forma de propagação das idéias (capital cultural) através de uma infraestrutura de comunicação (capital tecnológico) no interior de uma comunidade, e seu conseqüente desdobramento ou não em ações coletivas inteligentes.

Por outro lado, devemos lembrar que as inteligências individuais parecem não se prolongar naturalmente numa inteligência coletiva. O fato de indivíduos estarem em grupo não significa que haverá entre eles uma tal sinergia de idéias que resulte numa ação conjunta. Essa é a razão de nosso interesse específico no campo da ação coletiva, pois ela é a expressão genuína de uma inteligência afluente, que também chamamos de ação coletiva inteligente. Howard Rheingold, por exemplo, narra em seu último livro, Smart Mobs, como o recente movimento social nas Filipinas, que depôs o então presidente Estrada, resultou da inteligência afluente da população. No dia do julgamento do processo de impeachment do presidente, mensagens enviadas através de celulares conseguiram mobilizar em questão de minutos mais de um milhão de cidadãos diante do Congresso. É válido dizer que esse movimento de confluência de pessoas numa direção física foi também acompanhado por um fluxo de inteligência afluente, que se traduziu na percepção pública da força de uma idéia, capaz de mobilizar a tantos de forma consciente (1). A inteligência afluente é aquela que permite ao coletivo lidar com o imprevisto, que lhe dá flexibilidade na ação. Mas qual o potencial de inteligência de um determinado grupo, comunidade, nação? Seria possível mensurar essa disposição para a ação inteligente em conjunto?

Esses são apenas alguns dos aspectos que apontam para uma espécie de assimetria entre a dimensão do indivíduo (com suas preferências, interesses, inteligência) e aquela do coletivo, onde os indivíduos são convocados a agir, decidir, adotar comportamentos não apenas em função de si mesmos, mas também conjuntamente. Conhecer uma delas não necessariamente nos garante compreender a outra. Vencer essa distância é o que deve mobilizar parte de nossos esforços para entender e atuar em projetos que envolvam redes sociais e que dependem, portanto, do engajamento efetivo das pessoas.

http://br.monografias.com/trabalhos/inteligencia-coletiva-redes-sociais-ciberespaco/inteligencia-coletiva-redes-sociais-ciberespaco.shtml Acesso em 18 de setembro de 2009

Inteligência Coletiva

A inteligência coletiva segundo Pierre Lévy


O autor de Cibercultura entende que inteligência coletiva tem a ver com software livre, blogs, TV digital e educação à distância e propôs em São Paulo que usemos a internet para a troca de conhecimento.

Por Raphael Perret

O que vem à sua mente ao ler a expressão inteligência coletiva? Se a resposta foi algo parecido com um cérebro gigante, capaz de tomar decisões a partir do conhecimento adquirido e compartilhado por diversas pessoas, não está muito distante da teoria do pesquisador e escritor francês Pierre Lévy. Trata–se, sem dúvida, de uma interpretação peculiar. Mas, simbolicamente, é isso mesmo.

Lévy esteve na quinta–feira, 29 de agosto, em São Paulo, no SESC da Vila Mariana, para apresentar uma conferência sobre as inteligências coletivas, sua principal área de estudo na Universidade de Ottawa, no Canadá. O autor de Cibercultura e O que é o virtual se sentiu em casa. “Tenho um passaporte francês, autorização para viver no Canadá e um coração brasileiro. Já aproveitei minhas estadias aqui para lançar temas que antes nunca havia discutido”, confessou.

Inflado o ego da platéia, o franco–canadense–brasileiro foi mais direto ao assunto. Para ele, a inteligência coletiva (IC) é, basicamente, a partilha de funções cognitivas, como a memória, a percepção e o aprendizado. “Elas podem ser melhor compartilhadas quando aumentadas e transformadas por sistemas técnicos e externos ao organismo humano”, explicou Lévy, referindo–se aos meios de comunicação e à internet.

Porém, o escritor deixou claro que a IC não é só isso: “ela só progride quando há cooperação e competição ao mesmo tempo”. Para exemplificar, Lévy citou a comunidade científica, capaz de trocar idéias (= cooperar) porque tem a liberdade de confrontar pensamentos opostos (= competir) e, assim, gerar conhecimento. “É do equilíbrio entre a cooperação e a competição que nasce a IC”, concluiu, deixando claro que não são apenas os cientistas que utilizam esse novo conceito: “as empresas necessitam cada vez mais de empregados que precisam lançar idéias e resolver questões coletivamente. As tecnologias atuais permitem isso”.

É assim que nasce a IC, tecnologias atuais… Seria o objeto de estudo de Lévy um conceito novo, inexistente no período pré–internet? Segundo o pesquisador, não. A inteligência coletiva desenvolveu–se à medida que a linguagem evoluiu. A disseminação do conhecimento acompanhou a difusão das idéias através dos discursos, da escrita (”posso, hoje, ler Platão, mesmo que ele tenha escrito uma obra há mais de dois mil anos”) e da imprensa (”quanto mais os meios de comunicação se aperfeiçoam, mais ganha a inteligência coletiva”). Hoje, a era é diferente. E inédita. “O mundo das idéias é o ciberespaço, que permite a interconexão e, portanto, a ubiqüidade. Ainda não conhecíamos essa situação”, resume.

O escritor jura que sua teoria não nasceu por acaso e que ela não é fruto exclusivo de seus estudos. Ele apenas tenta adaptar a IC à atualidade social e tecnológica. De fato, a pesquisa de Lévy baseia–se em tríades inspiradas na conexão tripla entre o “signo, a coisa representada e a cognição produzida na mente”, definida pelo semiólogo americano Charles Sanders Peirce.

Um exemplo? Para Lévy, a inteligência coletiva pode ser dividida em inteligência técnica, conceitual e emocional. A primeira corresponde à inteligência que lida com o mundo concreto e dos objetos, como a engenharia (coisa). A seguinte relaciona–se ao conhecimento abstrato e que não incide sobre a materialidade física, como as artes e a matemática (signo). A última, por sua vez, representa a relação entre os seres humanos e o grau de paixão, confiança e sinceridade que a envolve, e tem a ver com o direito, a ética e a moral (cognição).

Porém, a melhor ilustração da tríade de Peirce fica por conta da economia da informação descrita por Lévy. Segundo o conferencista, no mundo atual as idéias são o capital mais importante, e que só pode ser adquirido quando as pessoas pensam em conjunto. Para isso, é necessária a produção de três capitais:

(1) o técnico, que vai dar suporte estrutural à construção das idéias e pode ser exemplificado pelas estradas, prédios, meios de comunicação (coisa);

(2) o cultural, mais abstrato, representado pelo conhecimento registrado em livros, enciclopédias, na World Wide Web (signo);

(3) o social, que corresponde ao vínculo entre as pessoas e grau de cooperação entre elas (cognição).

O capital técnico gera as condições necessárias para a disseminação dos capitais cultural e social que, por sua vez, criam o capital intelectual, ou seja, todas as idéias inventadas e depreendidas pela população e que, uma vez expostas, passam ao domínio público. Esse capital, enfim, é o núcleo de toda a inteligência coletiva.

Lévy afirma que estamos apenas no início de uma nova etapa da evolução cultural. “A que tipo de civilização esse ambiente ecossistêmico de idéias vai nos levar?”, provoca. Antes que alertem–no de que apenas 8% dos brasileiros têm acesso à internet, ele dá sua opinião: “é claro que estamos longe do ideal, mas o índice de conexão no Brasil é notável. Não podemos esquecer que a escrita foi inventada há cerca de três mil anos, o alfabeto há mil e não é a totalidade do mundo que sabe ler e escrever”.

Enfim, a teoria do pesquisador pode ser resumida na sua chamada ecologia das idéias, isto é, a relação bidirecional – e algo darwiniana – entre a população e as idéias. Se as pessoas (não) ajudam a reprodução de conhecimento, este lhe será totalmente (des)favorável. De outro modo, se as idéias (des)favoráveis são mantidas e disseminadas, a população (não) se reproduz. O papel da internet é fundamental para o funcionamento desse sistema. “O ciberespaço é a principal fonte para a criação coletiva de idéias, de forma que elas sejam usadas para o bem de todos, através da cooperação intelectual”, conclui Lévy, após 90 minutos de palestra.

A conexão cada vez mais densa entre os indivíduos realmente contribui para ações coletivas. O próprio Lévy dá exemplos em seu novo livro, Cyberdémocratie, de sites governamentais que se aproveitam da facilidade de comunicação com a população para debater temas relevantes para toda a sociedade. O crescente uso de ferramentas de groupware (tecnologias que auxiliam o trabalho cooperativo), que vão do prosaico correio eletrônico até sofisticados gerenciadores de workflow, também demonstra uma convergência necessária para a inteligência coletiva.

Entretanto, há muito ainda o que pensar. Todas as questões polêmicas e importantes que surgiram com o advento em massa da internet envolvem–se diretamente com a inteligência coletiva: direitos autorais, software livre, weblogs, TV digital, educação à distância, jornalismo online são alguns dos assuntos relacionados à expansão do ciberespaço e merecem destaque. Fora outra infinidade de temas, claro. Não se pode resumir um estudo tão amplo a alguns triângulos e tentar enquadrar os tópicos da pesquisa em cada um dos vértices. A pesquisa merece aprofundamento.

E por que não um aprofundamento coletivo? Cada universidade poderia estudar uma das áreas citadas e, depois, reunir os resultados obtidos das outras instituições e alcançar conclusões. Ou seja, o destino é esse mesmo. Usar a internet e as tecnologias atuais para a difusão e troca do conhecimento, de forma que cada um possa contribuir, do seu canto, no seu tempo, com sua idéia, com seu pensamento, com seu ponto de vista. Assim, será possível construir uma sociedade melhor planejada e, levando ao pé da letra, melhor pensada. Esse caminho pode até não ser seguido. No mínimo, deveria.


http://webinsider.uol.com.br/index.php/2002/09/09/a-inteligencia-coletiva-segundo-pierre-levy/ Acesso em 18 de setembro de 2009

Pierre Lévy - Vida


Pierre Lévy nasceu numa família judaica. fez mestrado em história da ciência e doutorado em sociologia e ciência da informação e de comunicação na Universidade de Sorbonne, França. Trabalha desde 2002 como titular de cadeira de pesquisa em inteligencia coletiva na Universidade de Ottawa, Canadá. É membro de sociedade Real do Canadá (Academia Canadense de Ciencia e Humanidade).

Ciberespaço / Cibercultura: Discussão de conceitos


Nas pesquisas sociais, uma das primeiras questões que devem ser pensadas é a da construção do objeto de estudo. De acordo com Bourdieu, os objetos da Ciência Social não estão "prontos", mas devem ser construídos, a partir de um determinado referencial teórico que irá orientar o trabalho analítico:
"Un objeto de investigación, por más parcial y parcelario que sea, no puede ser definido y construido sino en función de una problemática teórica (...)" (Bourdieu, 1978: 54, grifo do autor).
Portanto, antes de considerarmos a Internet como tema de estudo, e para que possamos construir, a partir deste tema, um objeto, é conveniente que sejam feitas algumas considerações conceituais, no sentido de tornar claro o referencial sobre o qual se desenrolarão as reflexões.
A Internet, conhecida como "rede das redes" [2], constitui-se em uma instância técnica que condensa uma série de características do cyberspace, conceito que lhe é anterior. Palavra cunhada por William Gibson, no já clássico romance de ficção científica Neuromancer (Gibson, 1984), o ciberespaço [3] designa, originalmente, o espaço criado pelas comunicações mediadas por computador ("CMC’s"). Segundo o próprio Gibson:
"Cyberspace. A consensual hallucination experienced daily by billions of legitimate operators, in every nation, by children being taught mathematical concepts... A graphical representation of data abstratcted from the banks of every computer in the human system. Unthinkable complexity. Lines of light ranged in the nonspace of the mind, clusters and constellations of data. Like city lights, receding..." (Gibson, 1984:51)
O termo veio rebatizar e dar novas características ao que se chamava até então de "esfera de dados". No desenrolar de sua utilização, no entanto, acabou englobando outros objetos, e dando origem a outras expressões como cibercultura, ciberpunk e ciberocracia.
Poderíamos afirmar, inicialmente, que o termo cibercultura abrange os fenômenos relacionados ao ciberespaço, ou seja, os fenômenos associados às formas de comunicação mediadas por computadores. Entretanto, o conjunto de objetos abrangidos pelo conceito é mais amplo, sendo que uma cartografia precisa dos mesmos ainda não é consensual.
De acordo com este espírito, Arturo Escobar (Escobar, 1994), define cibercultura tendo como pano de fundo as novíssimas tecnologias, em especial as relacionadas à comunicação digital, à realidade virtual e à biotecnologia [4]. A natureza desta definição faz com que a cibercultura seja considerada a partir da perspectiva da análise da tecnologia, passando a abranger os fenômenos associados às novas tecnologias de ponta e à nova "tecnologia intelectual" engendrada pelo computador, conforme veremos a seguir.
Esta definição pode ser avaliada em relação à obra Neuromancer: de fato, o seu desenrolar ocorre tanto na vida "real" como na realidade virtual criada pelos computadores envolvidos na trama. Vários dos personagens possuem seus corpos alterados e "hiper-realizados" por implantes artificiais, tanto de natureza biológica quanto eletrônica e também mista. Durante a ação, os personagens entram em contato com drogas de fácil aplicação e efeitos imediatos, que oferecem novos estados de consciência e percepção. Neuromancer, desta forma, desenha o retrato de um futuro onde a vida humana será fortemente permeada pela intervenção da tecnologia, e onde a questão da identidade individual passa a ser, exacerbadamente, um ato de escolha, determinação pessoal e, principalmente, consumo:
The bartender’s smile widened. His ugliness was the stuff of legend. In age of affordable beauty, there was something heraldic about his lack of it. The antique arm whined as he reached for another mug. It was a russian military prosthesis, a seven function force-feedback manipulator, cased in grubby pink plastic. (Gibson, 1984: 4, grifo meu)
Muito do que Gibson esboçou em Neuromancer já migrou das páginas de ficção científica para as matérias das revistas especializadas em informática e divulgação científica. Mais ainda, com o crescimento exponencial da Internet, a mídia de massa passou a tematizar esta nova "revolução tecnológica", trazendo para as camadas médias, sempre ávidas por "atualidade", os temas da conectividade, da realidade virtual, da globalização das comunicações. É sobre os efeitos destas novas tecnologias no imaginário do homem que a reflexão sobre a tecno-ciência [5] irá se debruçar.
O conceito de ciberespaço pode ser melhor compreendido à luz do esclarecimento que Pierre Levy faz à respeito do virtual (Levy, 1996). Segundo ele, o virtual é uma nova modalidade de ser, cuja compreensão é facilitada se considerarmos o processo que leva à ele: a virtualização.
A tradição filosófica utiliza o par de oposição potência/ato para a reflexão sobre os estados possíveis do ser [6]. Assim, uma semente é uma árvore em potência, que se atualiza no momento em que se transforma em árvore. Levy, considerando esta análise insuficiente para dar conta da questão da virtualização, passa a utilizar a distinção elaborada por Deleuze entre possível e virtual. O possível associa-se ao real, na medida em que aquele é este sem a existência. A realização, passagem do possível para o real, portanto, não envolve nenhum ato criativo. A diferença entre possível e real reside no plano da lógica, consistindo em um mero quantificador existencial
O virtual, por outro lado, distingue-se do atual na medida em que, diferentemente do possível, não contém em si o real finalizado, mas sim um complexo de possibilidades que, de acordo com as condições e os contextos, irá se atualizar de maneiras distintas. O objetivo de Levy, ao fazer esta migração entre o par de conceitos possível x real para a díade virtual x atual, é conseguir associar ao processo de atualização o devir, com a interação entre o atual e o virtual. De acordo com o autor:
"O real assemelha-se ao possível; em troca o atual em nada se assemelha ao virtual: responde-lhe." (Levy, 1996: 17, grifo do autor)
O virtual, portanto, não pode ser compreendido como o possível, pois este já está determinado, mas sim como um "complexo problemático" que dialoga e interaje com o atual, transformando-se de acordo com as peculiaridades de cada contexto. O seu exemplo por excelência é um programa de computador, no que diz respeito à sua interação com um operador humano [7]. Nele, os resultados finais (as atualizações) não estão determinadas, pois serão resultado do processo de atualização, efetivado pela interação com a subjetividade do operador.
O ciberespaço pode ser, portanto, considerado como uma virtualização da realidade, uma migração do mundo real para um mundo de interações virtuais. A desterritorialização, saída do "agora" e do "isto" é uma das vias régias da virtualização, por transformar a coerção do tempo e do espaço em uma variável contingente. Esta migração em direção à uma nova espaço-temporalidade estabelece uma realidade social virtual, que, aparentemente, mantendo as mesmas estruturas da sociedade real, não possui, necessariamente, correspondência total com esta, possuindo seus próprios códigos e estruturas.
A emergência da cibercultura provoca uma mudaça radical no imaginário humano, transformando a natureza das relações dos homens com a tecnologia e entre si. Pierre Levy (Levy, 1995) defende uma interrelação muito próxima entre subjetividade e tecnologia. Esta influencia aquela de forma determinante, na medida em que fornece referenciais que modelam nossa forma de representar e interagir com o mundo. Através do conceito de "tecnologia intelectual", Levy discorre sobre como a tecnologia afeta o registro da memória coletiva social. As noções de tempo e espaço das sociedades humanas são afetadas pelas diferentes formas através das quais este registro é realizado.
O imaginário humano sempre esteve atrelado à tecnologia, sendo que não podemos pensá-la diferenciada da sociedade, como um elemento isolável, mas sim considerarmos um mundo permeado pela tecnologia, que influencia as formas de sociabilidade. A partir da perspectiva das tecnologias intelectuais, Levy traça um histórico da humanidade, mostrando de que forma cada uma delas influenciou sua época [8], até chegar à mudança que estamos vivendo hoje em dia:
"No caso da informática, a memória se encontra tão objetivada em dispositivos automáticos, tão separada do corpo dos indivíduos ou dos hábitos coletivos que nos perguntamos se a própria noção de memória ainda é pertinente" (Levy, 1995: 118) [9].
Ainda inseridos no contexto da linearidade instaurada pela escrita, que determinou os moldes da racionalidade ocidental, vemos emergir, a partir do surgimento dos meios informáticos, uma nova maneira de ver o mundo:
"(...) vivemos hoje em dia uma destas épocas limítrofes na qual toda a antiga ordem das representações e dos saberes oscila para dar lugar a imaginários, modos de conhecimento e estilos de regulação social ainda pouco estabilizados" (Levy, 1995: 17)
Podemos resumir a compreensão de Levy das mudanças acarretadas pelas novas tecnologias intelectuais a partir do esquema:
mudanças nas tecnologias intelectuais:
mudanças no imaginário:
mudanças na forma como as pessoas se relacionam entre si e com a própria tecnologia surgimento de novos meios de sociabilidade: são diferentes, porém estruturalmente semelhantes è exigem novos códigos, uma apropriação diferenciadaAs tecnologias intelectuais relacionadas à informática estão trazendo à tona uma modalidade de pensamento eminentemente imagético e desterritorializado. Os ícones e imagens, característicos do pensamento mítico associado à tecnologia intelectual da oralidade (Levy, 1995: 82), voltam à tona. Esta imagética, porém, alimentada pelos recursos tecnológicos, adquire mais duas dimensões: a espacialização, a conquista da terceira dimensão, e a temporalidade própria. Lev Manovich, em um artigo muito interessante (Manovich, 1996), argumenta sobre as consequências da espacialização da Internet [10] nas narrativas e na concepção de tempo:
"The computerization of culture leads to the spatialization of all information, narrative, and, even, time. Unless this overall trend is to reverse suddenly, the spatialization of cyberspace is next. ‘(...) future online systems will be characterized by a high degree of interaction, support for multi-media and most importantly the ability to support shared 3D spaces. (...) users will not simply access textual based chat forums, but will enter into 3D worlds where they will be able to interact with the world and with other users in that world.’ " (Manovich, 1996)
Um dos traços mais marcantes da Internet, e que serve, entre outros, para marcar sua diferença com outras mídias, é a interatividade. Termo que, como vários outros (por exemplo, "conectividade", "globalização", etc.), virou palavra de ordem na campanha publicitária explícita ou implícita da qual a Internet foi tema [11], a interatividade na Internet constitui uma espécie de meta dos ideólogos da rede [12].
Percebemos que em vários contextos da rede o usuário é chamado a participar, tanto através do envio intencional de mensagens, quanto pelo próprio ato de navegar através de links de hipertexto. Conforme Pierre Levy (Levy, 1996), o hipertexto virtualiza o texto ao transformá-lo em problemática textual, que só ocorre quando defrontada com subjetividades:

A

A

V

A

pensamento
è
texto
è
leitura
è
hipertexto
è
leitura
A: atualizaçãoV: virtualização
Os dispositivos hipertextuais virtualizam o processo de leitura ao exteriorizarem, objetivarem as atividades, antes subjetivas, de conexão, montagem e interrelação. Logo, esta transformação, aparentemente quantitativa, é de natureza qualitativa: o leitor sempre relacionou o que estava lendo com o seu passado intelectual, suas lembranças e suas referências, construindo, em sua consciência, o seu hipertexto privado. O ciberespaço oferece uma nova forma de estabelecimento desta teia (e aqui o termo "teia" é utilizado intencionalmente: web), multiplicando o número de links possíveis e tornando, tanto os links quanto sua interrelação, externos à consciência do sujeito. [13]
Assim, mesmo em contextos onde aparentemente não é aplicável o conceito de sociabilidade, como na leitura de um hiperdocumento, estabelece-se uma relação entre o leitor e o produtor (distinção, que, conforme Levy, está cada vez mais pálida). É comum encontrarmos referências explícitas, por parte do autor, à postura do leitor (diríamos melhor: "navegador") no que se refere à leitura:
"Você pode continuar lendo o item seguinte - Como fazer referência a um texto convencional - ou retornar ao Sumário." (extraído de um documento sobre formas de citação e referência à documentos eletrônicos)
O trabalho de Levy é importante na medida em que contribui para a reflexão à respeito da virtualidade, mas, principalmente, no contexto da abordagem deste trabalho, porque traz para dentro do campo abrangido pelas CMC’s o dinamismo e a possibilidade de mudança, características essenciais da cultura.
<http://www.cfh.ufsc.br/~guima/ciber.html> Acesso em 18 de setembro de 2009