
Nas pesquisas sociais, uma das primeiras questões que devem ser pensadas é a da construção do objeto de estudo. De acordo com Bourdieu, os objetos da Ciência Social não estão "prontos", mas devem ser construídos, a partir de um determinado referencial teórico que irá orientar o trabalho analítico:
"Un objeto de investigación, por más parcial y parcelario que sea, no puede ser definido y construido sino en función de una problemática teórica (...)" (Bourdieu, 1978: 54, grifo do autor).
Portanto, antes de considerarmos a Internet como tema de estudo, e para que possamos construir, a partir deste tema, um objeto, é conveniente que sejam feitas algumas considerações conceituais, no sentido de tornar claro o referencial sobre o qual se desenrolarão as reflexões.
A Internet, conhecida como "rede das redes" [
2], constitui-se em uma instância técnica que condensa uma série de características do cyberspace, conceito que lhe é anterior. Palavra cunhada por William Gibson, no já clássico romance de ficção científica Neuromancer (Gibson, 1984), o ciberespaço [
3] designa, originalmente, o espaço criado pelas comunicações mediadas por computador ("CMC’s"). Segundo o próprio Gibson:
"Cyberspace. A consensual hallucination experienced daily by billions of legitimate operators, in every nation, by children being taught mathematical concepts... A graphical representation of data abstratcted from the banks of every computer in the human system. Unthinkable complexity. Lines of light ranged in the nonspace of the mind, clusters and constellations of data. Like city lights, receding..." (Gibson, 1984:51)
O termo veio rebatizar e dar novas características ao que se chamava até então de "esfera de dados". No desenrolar de sua utilização, no entanto, acabou englobando outros objetos, e dando origem a outras expressões como cibercultura, ciberpunk e ciberocracia.
Poderíamos afirmar, inicialmente, que o termo cibercultura abrange os fenômenos relacionados ao ciberespaço, ou seja, os fenômenos associados às formas de comunicação mediadas por computadores. Entretanto, o conjunto de objetos abrangidos pelo conceito é mais amplo, sendo que uma cartografia precisa dos mesmos ainda não é consensual.
De acordo com este espírito, Arturo Escobar (Escobar, 1994), define cibercultura tendo como pano de fundo as novíssimas tecnologias, em especial as relacionadas à comunicação digital, à realidade virtual e à biotecnologia [
4]. A natureza desta definição faz com que a cibercultura seja considerada a partir da perspectiva da análise da tecnologia, passando a abranger os fenômenos associados às novas tecnologias de ponta e à nova "tecnologia intelectual" engendrada pelo computador, conforme veremos a seguir.
Esta definição pode ser avaliada em relação à obra Neuromancer: de fato, o seu desenrolar ocorre tanto na vida "real" como na realidade virtual criada pelos computadores envolvidos na trama. Vários dos personagens possuem seus corpos alterados e "hiper-realizados" por implantes artificiais, tanto de natureza biológica quanto eletrônica e também mista. Durante a ação, os personagens entram em contato com drogas de fácil aplicação e efeitos imediatos, que oferecem novos estados de consciência e percepção. Neuromancer, desta forma, desenha o retrato de um futuro onde a vida humana será fortemente permeada pela intervenção da tecnologia, e onde a questão da identidade individual passa a ser, exacerbadamente, um ato de escolha, determinação pessoal e, principalmente, consumo:
The bartender’s smile widened. His ugliness was the stuff of legend. In age of affordable beauty, there was something heraldic about his lack of it. The antique arm whined as he reached for another mug. It was a russian military prosthesis, a seven function force-feedback manipulator, cased in grubby pink plastic. (Gibson, 1984: 4, grifo meu)
Muito do que Gibson esboçou em Neuromancer já migrou das páginas de ficção científica para as matérias das revistas especializadas em informática e divulgação científica. Mais ainda, com o crescimento exponencial da Internet, a mídia de massa passou a tematizar esta nova "revolução tecnológica", trazendo para as camadas médias, sempre ávidas por "atualidade", os temas da conectividade, da realidade virtual, da globalização das comunicações. É sobre os efeitos destas novas tecnologias no imaginário do homem que a reflexão sobre a tecno-ciência [
5] irá se debruçar.
O conceito de ciberespaço pode ser melhor compreendido à luz do esclarecimento que Pierre Levy faz à respeito do
virtual (Levy, 1996). Segundo ele, o virtual é uma nova modalidade de ser, cuja compreensão é facilitada se considerarmos o processo que leva à ele: a virtualização.
A tradição filosófica utiliza o par de oposição potência/ato para a reflexão sobre os estados possíveis do ser [
6]. Assim, uma semente é uma árvore em potência, que se atualiza no momento em que se transforma em árvore. Levy, considerando esta análise insuficiente para dar conta da questão da virtualização, passa a utilizar a distinção elaborada por Deleuze entre possível e virtual. O possível associa-se ao real, na medida em que aquele é este sem a existência. A realização, passagem do possível para o real, portanto, não envolve nenhum ato criativo. A diferença entre possível e real reside no plano da lógica, consistindo em um mero quantificador existencial
O virtual, por outro lado, distingue-se do atual na medida em que, diferentemente do possível, não contém em si o real finalizado, mas sim um complexo de possibilidades que, de acordo com as condições e os contextos, irá se atualizar de maneiras distintas. O objetivo de Levy, ao fazer esta migração entre o par de conceitos possível x real para a díade virtual x atual, é conseguir associar ao processo de atualização o devir, com a interação entre o atual e o virtual. De acordo com o autor:
"O real assemelha-se ao possível; em troca o atual em nada se assemelha ao virtual: responde-lhe." (Levy, 1996: 17, grifo do autor)
O virtual, portanto, não pode ser compreendido como o possível, pois este já está determinado, mas sim como um "complexo problemático" que dialoga e interaje com o atual, transformando-se de acordo com as peculiaridades de cada contexto. O seu exemplo por excelência é um programa de computador, no que diz respeito à sua interação com um operador humano [
7]. Nele, os resultados finais (as atualizações) não estão determinadas, pois serão resultado do processo de atualização, efetivado pela interação com a subjetividade do operador.
O ciberespaço pode ser, portanto, considerado como uma virtualização da realidade, uma migração do mundo real para um mundo de interações virtuais. A desterritorialização, saída do "agora" e do "isto" é uma das vias régias da virtualização, por transformar a coerção do tempo e do espaço em uma variável contingente. Esta migração em direção à uma nova espaço-temporalidade estabelece uma realidade social virtual, que, aparentemente, mantendo as mesmas estruturas da sociedade real, não possui, necessariamente, correspondência total com esta, possuindo seus próprios códigos e estruturas.
A emergência da cibercultura provoca uma mudaça radical no imaginário humano, transformando a natureza das relações dos homens com a tecnologia e entre si. Pierre Levy (Levy, 1995) defende uma interrelação muito próxima entre subjetividade e tecnologia. Esta influencia aquela de forma determinante, na medida em que fornece referenciais que modelam nossa forma de representar e interagir com o mundo. Através do conceito de "tecnologia intelectual", Levy discorre sobre como a tecnologia afeta o registro da memória coletiva social. As noções de tempo e espaço das sociedades humanas são afetadas pelas diferentes formas através das quais este registro é realizado.
O imaginário humano sempre esteve atrelado à tecnologia, sendo que não podemos pensá-la diferenciada da sociedade, como um elemento isolável, mas sim considerarmos um mundo permeado pela tecnologia, que influencia as formas de sociabilidade. A partir da perspectiva das tecnologias intelectuais, Levy traça um histórico da humanidade, mostrando de que forma cada uma delas influenciou sua época [
8], até chegar à mudança que estamos vivendo hoje em dia:
"No caso da informática, a memória se encontra tão objetivada em dispositivos automáticos, tão separada do corpo dos indivíduos ou dos hábitos coletivos que nos perguntamos se a própria noção de memória ainda é pertinente" (Levy, 1995: 118) [
9].
Ainda inseridos no contexto da linearidade instaurada pela escrita, que determinou os moldes da racionalidade ocidental, vemos emergir, a partir do surgimento dos meios informáticos, uma nova maneira de ver o mundo:
"(...) vivemos hoje em dia uma destas épocas limítrofes na qual toda a antiga ordem das representações e dos saberes oscila para dar lugar a imaginários, modos de conhecimento e estilos de regulação social ainda pouco estabilizados" (Levy, 1995: 17)
Podemos resumir a compreensão de Levy das mudanças acarretadas pelas novas tecnologias intelectuais a partir do esquema:
mudanças nas tecnologias intelectuais:
mudanças no imaginário:
mudanças na forma como as pessoas se relacionam entre si e com a própria tecnologia surgimento de novos meios de sociabilidade: são diferentes, porém estruturalmente semelhantes è exigem novos códigos, uma apropriação diferenciadaAs tecnologias intelectuais relacionadas à informática estão trazendo à tona uma modalidade de pensamento eminentemente imagético e desterritorializado. Os ícones e imagens, característicos do pensamento mítico associado à tecnologia intelectual da oralidade (Levy, 1995: 82), voltam à tona. Esta imagética, porém, alimentada pelos recursos tecnológicos, adquire mais duas dimensões: a espacialização, a conquista da terceira dimensão, e a temporalidade própria. Lev Manovich, em um artigo muito interessante (Manovich, 1996), argumenta sobre as consequências da espacialização da Internet [
10] nas narrativas e na concepção de tempo:
"The computerization of culture leads to the spatialization of all information, narrative, and, even, time. Unless this overall trend is to reverse suddenly, the spatialization of cyberspace is next. ‘(...) future online systems will be characterized by a high degree of interaction, support for multi-media and most importantly the ability to support shared 3D spaces. (...) users will not simply access textual based chat forums, but will enter into 3D worlds where they will be able to interact with the world and with other users in that world.’ " (Manovich, 1996)
Um dos traços mais marcantes da Internet, e que serve, entre outros, para marcar sua diferença com outras mídias, é a interatividade. Termo que, como vários outros (por exemplo, "conectividade", "globalização", etc.), virou palavra de ordem na campanha publicitária explícita ou implícita da qual a Internet foi tema [
11], a interatividade na Internet constitui uma espécie de meta dos ideólogos da rede
[12].
Percebemos que em vários contextos da rede o usuário é chamado a participar, tanto através do envio intencional de mensagens, quanto pelo próprio ato de navegar através de links de hipertexto. Conforme Pierre Levy (Levy, 1996), o hipertexto virtualiza o texto ao transformá-lo em problemática textual, que só ocorre quando defrontada com subjetividades:
A
A
V
A
pensamento
è
texto
è
leitura
è
hipertexto
è
leitura
A: atualizaçãoV: virtualização
Os dispositivos hipertextuais virtualizam o processo de leitura ao exteriorizarem, objetivarem as atividades, antes subjetivas, de conexão, montagem e interrelação. Logo, esta transformação, aparentemente quantitativa, é de natureza qualitativa: o leitor sempre relacionou o que estava lendo com o seu passado intelectual, suas lembranças e suas referências, construindo, em sua consciência, o seu hipertexto privado. O ciberespaço oferece uma nova forma de estabelecimento desta teia (e aqui o termo "teia" é utilizado intencionalmente: web), multiplicando o número de links possíveis e tornando, tanto os links quanto sua interrelação, externos à consciência do sujeito.
[13]
Assim, mesmo em contextos onde aparentemente não é aplicável o conceito de sociabilidade, como na leitura de um hiperdocumento, estabelece-se uma relação entre o leitor e o produtor (distinção, que, conforme Levy, está cada vez mais pálida). É comum encontrarmos referências explícitas, por parte do autor, à postura do leitor (diríamos melhor: "navegador") no que se refere à leitura:
"Você pode continuar lendo o item seguinte - Como fazer referência a um texto convencional - ou retornar ao Sumário." (extraído de um documento sobre formas de citação e referência à documentos eletrônicos)
O trabalho de Levy é importante na medida em que contribui para a reflexão à respeito da virtualidade, mas, principalmente, no contexto da abordagem deste trabalho, porque traz para dentro do campo abrangido pelas CMC’s o dinamismo e a possibilidade de mudança, características essenciais da cultura.